segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Tormentas do Destino


O expediente das pessoas normais já ia terminando, das pessoas normais, mas não o dele. Não tinha medo de trabalho, isso não o assustava, e era fato que já havia se acostumado com a rotina puxada. Mas, a verdadeira razão talvez fosse que, na verdade, ele não possuísse ninguém para voltar. Mais do que tudo, aquele era seu lar.

Um lar em certa parte feliz, diria harmonioso. Pelo menos até seis meses atrás, quando por conta do falecimento do dono da empresa, ele começou a trabalhar para o filho do patriarca. O herdeiro era em tudo o oposto do pai. Incompetente, arrogante e despreparado, eram os principais adjetivos que vinham à mente. Ossos do ofício, ele pensava. Já era vivido o suficiente para saber que volta e meia todos nos deparamos com um idiota no campo profissional, ainda que o novo chefe competisse em nível olímpico na categoria.

Foi chamado à sala do Napoleão, apelido carinhoso do superior. Encontrou-o já bufando:
- Quem é responsável por isso?
Inquiriu, retoricamente.
- Você sabe.
- Para você é Senhor, cadê o diabo do respeito rapaz?
Sentiu mais saudades ainda do velho. Engoliu seco o orgulho:
- O Senhor sabe.
- A qualidade, que já é normalmente baixa, está pior ainda.
Pensou em argumentar, mas sentiu-se cansado demais para isso.
- E...
- E, se a coisa continuar assim vou ser obrigado a demiti-lo. Obrigado não, porque com esse nível de trabalho, parece que você está praticamente me implorando para fazer isso. Hmm, acho que entendi, é bem típico da sua laia. Quer ser demitido para ganhar os benefícios, sacar o fundo de garantia.
Era sua chance, jogar a toalha e sair do ringue carregado.
- Pois é, pelo jeito o senhor decifrou meu plano maligno.
O sujeito percebeu a ironia e perdeu de vez a compostura:
- Ponha-se daqui para fora rapaz. Você está demitido! Só volte aqui amanhã para pegar as suas coisas e assinar os papéis.

No corredor apertou compulsivamente o botão do elevador. Queria sair daquele lugar, deixar tudo para trás, para nunca mais voltar. O elevador chegou. Apertou o térreo, e esperou. Esperou quase enojado com a lentidão na qual o aparelho se deslocava. Ao chegar ao destino saiu apressado. Quando finalmente alcançou a calçada, até o ar quente de uma noite de verão do Rio de Janeiro, pareceu refrescar-lhe. Por alguns metros caminhou devagar, sentia-se miserável, derrotado, mas de alguma maneira aliviado. O pesadelo havia, de certa maneira, acabado.

Então, ouviu um estrondo que mudou seu mundo completamente. Ao olhar para trás, viu o prédio onde trabalhou por mais de quinze anos, desabar em pedaços.

[]s
Jack DelaVega