Entrei na reunião. Estava eu e mais três gerentes. O assunto não era nada técnico. Iríamos discutir um problema relacionado com apelidos e algumas outras brincadeiras que estavam incomodando algumas pessoas do time.O assunto não era novo para mim. Dentro do meu time, há apenas 20 dias antes daquela reunião, um desenvolvedor ficou extremamente irritado com o apelido que lhe haviam colocado. A reação dele em um almoço foi incisiva: disse que não havia gostado e que o pessoal tinha passado do limite, chegando até a desenhar uma linha imaginária na mesa, separando ele dos outros. Quando soube o que havia ocorrido, fui falar informalmente com o pessoal que havia colocado o apelido.
- Pessoal, não sou professor de segunda série. Tenho confiança que vocês vão saber enxergar o limite. Se souber que isso impacta 1% no trabalho, vou intervir.
Também tive uma conversa informal com a pessoa que havia recebido o apelido para garantir que ele sabia como se defender.
Meu medo de interferir naquele assunto era criar inimizade entre as partes, fazendo com que o problema não se resolvesse, apenas se mascarasse. E o que eu esperava ocorreu. A natureza fez as pessoas entenderem os limites e todos ficaram amigos alguns dias depois.
Mas vamos voltar à reunião. O problema principal era que um dos gerentes estava pessoalmente ofendido e estava com o sangue muito quente - queria uma solução urgente do assunto.
Minha estratégia estava montada:
1) Somos pessoas seniors, não podemos agir pela emoção. Vamos nos concentrar nos fatos
2) Não vamos fazer disso um caso absurdo. Isso ocorre e só precisamos falar com as pessoas envolvidas.
A reunião iniciou. Pelo tom do gerente ofendido vi que a reunião ia ser pesada – muito pesada. Foi quando uma voz iluminada ao meu lado falou calmamente:
- O meu ponto é que temos culpa nisso. Rimos dos apelidos e das brincadeiras. Somos coniventes. Indiretamente, até incentivamos esse tipo de comportamento para manter o ambiente descontraído.
Silêncio na sala. Mortal.
E não é que ele tinha razão? Só não tinha razão como tinha achado a causa-raiz de tudo. A reunião acabou rapidamente depois daquele comentário. Nos comprometemos a mudar a forma como nos comportaríamos diante de circunstâncias do gênero.
Vou ser sincero. Saí da reunião arrasado. Não por ter entrado com a estratégia errada. O problema é que percebi que mesmo se tivesse pensado nessa estratégia, não teria tido a coragem de segui-la naquele ambiente hostil. Logo eu, que falo sempre em fazer o certo pelo certo.
Mas cheguei em casa já um pouco melhor . Percebi que, depois de tanto tempo sem ver atitudes similares naquela empresa, podia contar com uma pessoa ética e honesta ao meu lado. Naquele dia, sem querer, ele não apenas resolveu a reunião, mas deu uma lição de humanismo para todos que ali estavam. Uma lição de vida.
Espero que a próxima vez não tenha dúvidas em fazer o certo.
Dr. Zambol
--





