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sábado, 10 de dezembro de 2011

Lição de perspectiva: Um passeio sobre novos ares


- Oi Ana, tudo bem? Posso me sentar com você para tomar este café?

- Claro Roberto, por favor, fique à vontade.

- Sabe Ana, já que estamos aqui, queria aproveitar para lhe fazer uma pergunta sobre algo que venho percebendo nesses últimos dias. Como de repente você conseguiu adquirir essa serenidade, mesmo sabendo que o furacão aqui na empresa ainda não passou?

- Então meu amigo, acontece que eu aprendi a andar de helicóptero.

- Como?

- Calma. Fiz a mesma pergunta à pessoa que me ensinou, mas agora está tudo claro, deixa que lhe conto a história toda. Estava decidida a pedir demissão, precisava apenas bater um papo com meu mentor antes de fazer o comunicado oficial. Entrei na sala dele, meio inquieta, meio desiludida, dei-lhe um daqueles abraços apertados, como quem se vê aliviada diante da esperança materializada à sua frente, sentei, e com uma respiração bem profunda, forcei meu silêncio.

- Vejo que está evoluindo, Ana. Lembrou da importância da respiração que tanto conversamos semana passada.

- Não esqueço seu olhar de orgulho contrastando com um misterioso sorriso de Monalisa. Fiz sinal de afirmação com a cabeça, juntamente com um “esticar de lábios” pouco convincente, na tentativa de retribuir a expressão acolhedora.

- Lembra-se também que falamos sobre comportamento assertivo e toda aquela história de se expressar de maneira afirmativa para deixar as coisas bem resolvidas?

- Lembro sim.

- Pois então me diga exatamente o que você está sentindo neste momento e o que lhe traz até aqui.

- Às vezes fica muito difícil manter aquela esperança que faz a gente acreditar no sol depois da tempestade, e a paciência, para esperar este momento chegar. Sem perceber, você começa a dar sinais de desistência, na despreocupação com a aparência, na falta de interações sociais, até que isso também se reflita no seu rendimento profissional com a diminuição de resultados. Só que o mundo não congela e te dá um tempo para encontrar sua nova fonte de motivação, então seu corpo e sua mente passam a fazer um esforço descomunal para seguir tocando o barco, ainda com o risco de morrer no mar. Sinto que estou afundando.

- Ele então olhou para sua direita, mirando o céu azul sem nuvens que podia ser visto perfeitamente através de uma grande janela de vidro. Estacionou seus pensamentos ali por alguns segundos e voltou à atenção para mim.

- Primeiro, esqueça essa história de barco. Mude seu veículo de transporte. Aprenda a passear de helicóptero!

- Como? Disse indignada. – Utilizei uma metáfora para expressar meus profundos sentimentos e você responde com um conselho literal?

- É mental, não literal. Te dá perspectiva. O dia está ruim? Pensa na semana. A semana está ruim? Pensa no ano. O ano está ruim? Pensa na vida!

- Foi o melhor conselho que já recebi até hoje...

- Entendi. Mas então, só por curiosidade, você já passeou de helicóptero de verdade? Não teve vontade de viver essa experiência real?

- Vontade eu tive sim, e muita, mas não fui. Fico com receio de não querer mais descer, sabe.


(uma homenagem ao amigo Marcos)

Beatriz Carvalho

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Onde estão os High Potentials?

Considerando que a Geração Y representa uma pequena parte elitizada de jovens que nasceram entre os anos 80 e 90, e que High Potential é uma parte menor ainda dentro dessa parcela de jovens, semelhantes por seu brilhantismo, proatividade e ambição acima da média, comecei a perceber o quão raro é encontrar uma jóia dessas no mercado.
Toda essa reflexão iniciou após a leitura do livro Outliers: The Story of Success, do autor Malcolm Gladwell, e o qual recomendo a todos os leitores. Trata-se de um livro sobre pessoas “fora de série”, que são ou foram excepcionais em suas profissões, com exemplos de sucesso como o de Bill Gates, Steve Jobs e até mesmo os Beatles.
O mais interessante no livro é a forma como o autor aborda cada caso mostrando os demais fatores externos, além do talento, que estavam diretamente ligados àquele sucesso, como preparação, oportunidade e ambiente cultural.
Percebemos então que um High Potential nunca será reconhecido como tal sem pelo menos um desses fatores externos. Ninguém chega ao topo sozinho. Prodígios não nascem sabendo que são assim. Sucesso também tem a ver com autoconfiança e isso só se consegue quando se tem parâmetro e feedback.
Com isso, damos um passo atrás, pois a questão principal deixa de ser a escassez de jovens altamente qualificados (que tanto se fala por aí) para se tornar a forma com que as empresas e líderes estão utilizando para identificá-los e desenvolvê-los.
A estagiária do departamento financeiro só saberá que tem grandes chances de virar uma estilista de sucesso quando alguém desse meio visualizar seu potencial e disser isso a ela. Caso contrário, a coitada passará a vida toda achando que os croquis que ela desenha no caderno não passam de rabiscos e que seu gosto por moda nada mais é do que um hobbie.
Lógico que também existe o outro lado da história e digamos que o chefe da tal estagiária não tem bola de cristal para adivinhar que sua funcionária não está tendo uma boa performance por causa do pai que a obrigou fazer faculdade de Economia, resultando nesta sucessão de erros.
Mesmo assim, arrisco dizer que existe uma centena de High Potentials por ai que ainda não foram avisados sobre isso e uma outra centena de líderes que não os encontraram, talvez até estejam investindo nas pessoas erradas.
Sem dúvida alguma não é um trabalho fácil. Precisa haver uma grande sintonia entre preparação e feeling do líder neste assunto, a curiosidade do liderado para não criar tantos impedimentos na hora de arriscar, e não menos importante, o voto de confiança da empresa para investir no potencial de seus funcionários e acreditar que, no futuro, alguns deles poderão alcançar o mais alto patamar de um Outlier.
Beatriz Carvalho

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Reflexos do ambiente cultural na liderança

Aprendemos desde cedo a competir. Mais do que isso, aprendemos a gostar de competir, pois nos ensinam que a grande maioria das conquistas de nossa vida são obtidas por meio de uma competição. Dessa maneira, concluímos que é bom ser o melhor em alguma coisa, e por algum desvio na evolução humana, que ser o melhor é sinônimo de liderança.

Passam as gerações, as definições de certo e errado sofrem suas mutações naturais e então descobrimos que liderança é muito mais do que um conceito tão simplista como este, e até mesmo, que muitas vezes o líder nem sempre é aquele que melhor executa uma tarefa, mas sim aquele que sabe envolver a equipe, para que todos dêem o melhor de si.

O pensamento das novas gerações muda, as definições de certo e errado sofrem suas mutações naturais, mas as raízes do ambiente cultural o qual você cresceu e se desenvolveu permanecerão na geração passada. Valores que nortearam sua educação e influenciaram na formação de sua personalidade serão refletidos não só através de suas atitudes e palavras, mas também em habilidades e dificuldades que você terá com coisas e pessoas. Estamos constantemente equacionando novos e antigos valores.

Dentro deste assunto, faço questão de abordar o tema liderança, pois é um dos poucos momentos de nossa vida em que é possível assumir, oficialmente, o papel de Retransmissor de Valores (fora este, creio que só caberia dar o devido destaque aos pais e professores). O peso da responsabilidade deste papel se torna ainda maior quando se lidera pessoas que tiveram ambientes culturais diferentes do seu, ou mesmo se seus liderados estiverem em início de carreira, o que o tornará diretamente responsável por sua formação como profissional.

Por este motivo, todo líder deve sempre passar por uma profunda fase de aceitação de suas dificuldades, saber identificar quais delas podem ser advindas de um processo cultural, pois talvez o foco neste caso não deva ser a correção de um defeito, talvez essas dificuldades nunca consigam nem ser corrigidas. É questão de ter coragem para falar sobre o que está além dos treinamentos de liderança. Falar sobre personalidade, entendendo que liderança não é sinônimo de super heroísmo e que cultura é um fator que só se compreende quando se vivencia.

Beatriz Carvalho

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Quando a ambição atropela a aprendizagem

Com nossa necessidade constante de autoafirmação, nos acostumamos a levantar certas bandeiras e por elas lutar até o fim. Competimos para vencer, questionamos para transformar, lutamos porque...porque gostamos de lutar. Mas quando só se enxerga o destino, a trajetória parece insignificante e os meios para chegar até lá passam a não ter mais critérios. Nesta hora, ambição e ética entram em conflito e os princípios os quais você realmente luta, começam a aparecer.

A ambição é uma faca de dois gumes e precisamos saber direcioná-la para que se torne um combustível e não um veneno. Falar de ambição sem falar de ética é como começar a montar a composição deste veneno e estar a um passo de viver sob a lei da selva, lutando diariamente pela sobrevivência e não pela evolução da espécie.

Cada etapa de nossa jornada profissional virá acompanhada de obstáculos e aprendizagens. Tentar encurtar o caminho ou pular alguma dessas etapas, possivelmente nos livrará de certas dores de cabeça, mas também deixaremos de aprender. E acredite, uma hora esta informação faltante baterá à nossa porta pedindo satisfações. Por isso, é preciso aproveitar a jornada e deixar que as oportunidades apareçam quando estivermos prontos.

Quem disse que precisamos enxergar toda escada? Subamos o primeiro degrau com fé e ao topo saberemos que, se fosse possível, viveríamos tudo novamente.

Beatriz Carvalho

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Como se manter dentro do círculo mesmo estando fora dele

O mercado se assemelha a um organismo vivo. Está em constante transformação, e como uma montanha russa, nossa carreira também sofre abalos e oscilações. Sejam mudanças lentas ou descontinuidades, precisamos estar preparados para as ameaças, fortalecendo os aspectos que estão sob nosso controle.

O desemprego é o maior abalo sofrido por um profissional, principalmente quando a zona de conforto já havia sido instaurada. Uma grande sensação de impotência e retrocesso, longe de ser exceção àqueles que vivenciam um momento como este.

Mas uma hora ou outra você tem que dar as caras ao mercado novamente e estufar o peito para conseguir respirar novos ares. Começam então a aparecer os sintomas típicos deste período: empolgação, ansiedade, impaciência, insegurança e desespero, respectivamente. O tempo de busca fica cada vez maior e é cada vez mais difícil se reposicionar. Como ser jogado para fora de um círculo em movimento, em que só se mantém naquele ritmo aqueles que fazem parte dele.

Mas como então seria possível sentir essa mesma inércia estando sob o efeito de uma outra gravidade?

Para estar conectado a este círculo você precisa de uma ponte. Uma ótima sugestão é listar aqueles com quem possui alguma admiração profissional, que te inspiram e são uma referência para você. Entre em contato, diga brevemente sobre sua situação e sugira um café para pedir alguns conselhos sobre sua carreira. O conselho você já ganhará. Se tiver sorte e souber estimular a empatia entre os dois, poderá até conseguir um novo emprego ali mesmo naquela cafeteria (acredite, isso acontece muito).

O importante mesmo é curtir essa fase como ouvinte. Muitos dos que estão empregados não possuem todo esse tempo para absorver novas visões e experiências, infelizmente. É quase como ter sessões de coaching de graça! Por isso, não pule etapas e controle o desespero. Sua capacidade de interação com outras pessoas será o segredo para nunca deixá-lo de fora de seu círculo profissional.


Beatriz Carvalho

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Por uma vida menos ordinária


Levamos uma vida passiva com a correria do dia a dia. Quando nos acomodamos no trabalho, nas amizades, na família ou em qualquer outra área da vida, às vezes sem perceber, ligamos o botão automático e simplesmente vivemos. Vivemos o trabalho entediante, as amizades superficiais, a família desunida, e então aceitamos a chamar tudo isso de normal, até porque ninguém tem uma vida perfeita.

Todos sabem que ninguém tem uma vida perfeita, mas poucos se lembram que a vida é um exercício constante de aperfeiçoamento, como qualquer outra prática que diminui seu rendimento quando se diminui a constância.

É difícil comandar a rotina sem deixar que o motor automático assuma de vez em quando, até porque geralmente quando permitimos isso é porque achamos que a viagem esta fluindo tranquilamente. O perigo está quando nos esquecemos de voltar ao controle manual, bem como quando esquecemos dos ventos que por ventura passam a soprar outras rotas que não imaginávamos um dia seguir.

Sou altamente adepta a reflexões profundas sobre o sentido de tudo aquilo que me cerca. Não é constante, justamente por causa da rotina agitada, mas faço questão que seja periódica.

Qual foi o último grande feito o qual sentiu orgulho de si em ter realizado em seu trabalho?

Quais das tuas amizades lhe agregam de verdade?

Qual o sentido e o espaço que a família representa em sua vida atualmente?

Perguntas como estas são fundamentais nesse processo de reflexão. Aos desacostumados, tais exercícios poderão parecer maçantes no início, mas garanto que o hábito brevemente o tornará fácil e agradável.

"Fazer o melhor possível no momento atual nos colocará no melhor lugar possível no próximo momento" (Oprah Winfrey)

domingo, 10 de abril de 2011

E.A. - Entusiastas Anônimos



Andava com pressa pela calçada. Local emputecidamente lotado de pessoas incapazes de aplicar o mínimo esforço necessário para mover seus corpos no ângulo que os permitam seguir seus caminhos sem se confrontarem brutalmente com outros seres. Isso sem contar mendigos, pregadores da palavra de Deus, e mais perigosamente, os vendedores-de-sei-lá-o-que que te abordam, quase como uma ameaça, tentando lhe oferecer uma coisa ou de origem duvidosa ou inútil. Nesse dia fui pego por um deles.

- Olá senhora, será que eu poderia ter um minuto da sua atenção?

Andava ao meu lado enquanto falava.

- Na verdade agora não. Estou com um pouco de pressa.
- Vai ser muito rápido, eu prometo senhora.

Desta vez não estava mais ao meu lado, mas sim na minha frente e, consequentemente, impedindo meu deslocamento.

- Ok, diga.
- Estou aqui para falar sobre o E.A., a senhora já o conhece?
- Certamente não. Continuo com pressa.
- Entusiastas Anônimos. Nossa sede fica no segundo andar deste prédio. Gostaria de convidá-la para conhecê-lo. Hoje começa mais um grupo novo.
- E por que dentre tantas pessoas nessa bendita calçada, você foi achar que justamente eu deveria conhecer um grupo desses?
- A senhora está vestindo uma roupa social, mais precisamente terno e calça preta em um calor de trinta graus ao meio dia. Está também de salto alto andando rapidamente por essa calçada esburacada, equilibrando uma pilha de papéis em um braço e sua bolsa nada pequena no outro. Ainda assim demonstrava uma expressão tímida de contentamento e determinação. Você tem todas as características de um entusiasta anônimo.

Fiquei muda por um minuto.

- Quanto tempo leva caso me interessasse em assistir essa reuniãozinha ai?
- Uns quarenta minutos no máximo.
- Ok, vai. Leve-me até lá.

Ao entrar, percebi que a reunião já havia começado e uma senhora que me parecia ser a líder fazia a abertura para os outros participantes, todos sentados em roda. Discretamente fui me acomodando em uma das cadeiras.

- Sejam bem vindos ao Clube dos Entusiastas Anônimos. Agora vocês fazem parte de um grupo vitorioso de pessoas que aceitaram se mostrar aos seus semelhantes, para juntos superarmos essa barreira imposta pela sociedade em excluir aqueles que são verdadeiramente satisfeitos profissionalmente, e cujo trabalho nem sempre é bem visto pela maioria. Meu nome é Fátima, sou Chefe de Jornal Mural. Não faço as matérias, mas tenho muito prazer em organizá-las nos vinte murais espalhados pela empresa. Agora gostaria que cada um de vocês fizesse o mesmo. Apresentem-se e não sintam medo de expressar seus profundos sentimentos por suas funções. Quem começa?

- Eu amo mexer em planilhas de Excel! Formatar, corrigir, filtrar. Sou Head de Listas e meu nome é Alfredo.
- Sou Ana. Finalmente consegui o emprego dos meus sonhos. Sou operadora em uma empresa de Contact Center! Sempre achei o máximo usar aqueles headsets.

Assim todos se apresentaram até que chegou minha vez. Não sabia bem o que falar até que decidi deixar as palavras surgirem naturalmente.

- Olá, meu nome é Maria. Sou vendedora. Fixo baixo, comissão razoável. Trabalho pelo desafio e gosto da idéia de poder me superar a cada venda conquistada. Sempre compartilhava minhas vitórias porque acho que é pra isso que elas servem. Mas ai percebi que o pessoal lá da empresa caçoava de mim, então passei a comemorar sozinha, às vezes ia até o banheiro só pra poder dar um sorriso mais largo sem chamar atenção. Acho que é isso.

- Ok, muito obrigada a todos vocês pelos depoimentos. Disse Fátima.
- Acabamos nos estendendo e por isso acredito que iniciaremos as discussões da primeira pauta só na semana que vem. Não faltem. Como eu disse, todos aqui são vitoriosos por já terem dado o primeiro passo. Sonho com o dia em que este clube deixará de ser anônimo e todas as pessoas entenderão que satisfação profissional é muito mais do que altos salários, cargos com nomes bonitos e grandes posições hierárquicas, mas até lá precisaremos trabalhar muito. Ah, estudem sobre a Pirâmide de Maslow. É sobre ela que falaremos na semana que vem.

Sai de lá atônita. Ansiosa e curiosa para a próxima semana. Desci as escadas com um sorriso que não cabia em mim. Quase na calçada e distraída, esbarrei com um homem que ia subir. Olhou com cara feia e ainda se sentiu ofendido com minha alegria. Lembrei então que tinha voltado à vida real. Fechei a cara e continuei com a minha pressa.