quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Produtividade Pessoal

Neomar trabalhava pelo menos onze horas por dia, isso em um dia bom. Nove horas no escritório e mais duas em casa, respondendo e-mails ou participando de reuniões pelo telefone. Isso sem contar os fins de semana, havia criado a rotina de trabalhar no sábado pela manhã, para encerrar os assuntos pendentes, e no domingo à noite, na tentativa de começar a semana sem dever a ninguém.

Mas todo esse trabalho teria recompensa, sua avaliação de desempenho se aproximava e a expectativa era alta, certamente seu chefe reconheceria sua dedicação. No dia da avaliação, porém, a surpresa:
- Desculpe Neomar, esse não foi um dos seus melhores anos. Sinto que você tem tido problemas de produtividade. 
- Mas, mas...
Lembrou de todo o trabalho, longas noites, fins de semana. 
- Infelizmente, trabalho duro não ganha jogo. Tente montar um plano de melhoria, mas não se abale, sempre tem o ano que vem!

Na segunda-feira, ainda sob a ressaca moral da avaliação, decidiu que não iria participar de uma reunião de duas horas de revisão status. Se alguém não gostasse, que o demitisse, talvez fosse melhor assim. Usou esse tempo para trabalho efetivo. Ao fim do dia, apenas um e-mail descrevendo o que foi discutido na reunião com alguns action-itens. Nenhuma consequência extra. Genial! Trocou duas horas improdutivas, por cinco minutos lendo o e-mail. Decidiu fazer disso uma prática. 

Se por um lado salvou tempo com reuniões, os e-mails continuavam a chegar implacáveis na sua caixa postal. Precisava de um sistema para atacá-los. Optou pelo mesmo radicalismo que havia funcionado antes. Apenas duas horas de leitura de e-mais por dia. Trinta minutos no início da manhã, trinta ao fim da manhã e uma hora no final do dia, quando deixava para tratar os assuntos mais cabeludos. Se alguma coisa urgente surgisse no meio do dia ele certamente seria contatado pessoalmente ou por telefone. Em uma semana percebeu um fenômeno estranho, muitos assuntos urgentes acabavam solucionados sem a sua intervenção. Reduziu o tempo despendido no e-mail para uma hora diária ao evoluir para o conhecido sistema: 
  • Delete: Arquive ou simplesmente apague o que não interessa.
  • Delegue: O que não é sua responsabilidade.
  • Responda ou Faça: O que levar menos de dois minutos.
  • Postergue: Coloque na lista de coisas a fazer depois o que pode aguardar um pouco.
Das onze horas por dia, passou a trabalhar nove, produzindo muito mais. Mas faltava um último passo para atingir o nirvana profissional: Deixar de fazer o trabalho dos outros. Não foi fácil educar os colegas, devolver trabalho que não era seu, fazer coaching para que os outros desempenhassem o esperado, mas no final o esforço se pagou com juros e dividendos. Na sua próxima avaliação de desempenho o recado foi outro:
- Parabéns Neomar, seu ano foi excelente, nem parece a mesma pessoa do ano passado.
- Obrigado chefe, mas pode me chamar de Neo.

Havia, finalmente, craqueado a Matrix.

[]s
Jack DelaVega