A despeito de todos os estereótipos Seu Casemiro não era um afro-brasileiro. Seus olhos azuis e os cabelos brancos, outrora loiros, denotavam uma descendência Italiana ou Germânica. Porém, seu jeito de falar era característico de um bom Pai-de-Santo:
- Sunsê pode se sentar.
Diego sentou no banquinho desconfortável em frente ao velho mandingueiro.
- Sunsê está aqui por conta de mulher, quer ajuda no amor não é?
Mau começo, por que ele não fica quieto e pergunta qual o meu problema? Assim nos poupa o constrangimento.
- Na verdade não.
- Hmm, então é por causa do Jogo. Veio pedir para eu ajudar a fazer o seu irmão parar de Jogar.
Só se for para fazer o meu irmão parar de jogar futebol. Ele está acabando com a zaga do nosso time na pelada do fim de semana. Até que não é má idéia, mas não estou aqui para isso hoje.
- Não, hoje não.
- Intão o problema é com trabalho.
Finalmente, na terceira tentativa. Assim até eu acerto.
- Pois é Pai Casemiro, o meu problema é com o meu chefe. Adoro a empresa que trabalho, adoro o que faço, mas nos últimos seis meses esse novo chefe tem tornado a minha vida um inferno. Já tentei de tudo, fazer o que ele pede, conversar, consultar com o RH, mas não tem saída. Ele simplesmente não é uma pessoa racional. Estou desesperado.
- Hmm, misefê quer que a gente feche os caminhos dele?
- Fechar talvez não seja a palavra certa, será que o Sr. consegue só dar uma obstruída? Na verdade o melhor mesmo seria fazer com que ele siga o seu caminho, o mais longe possível do meu.
- Intindi. Bom, a gente trabalha aqui com seguinte escala:
Então o velho deixou por um momento o sotaque de lado e encarnou o melhor dos vendedores.
- Alimentos não perecíveis são para trabalhos pequenos, tipo pipoca e cachaça. Para trabalhos médios o indicado são animais de duas patas, o mais comum é o uso de galinhas, mas podemos usar patos ou até gansos conforme o caso. E, finalmente, trabalhos fortes, o melhor mesmo são animais de quatro patas, que variam de cabrito a bezerro, dependendo da necessidade.
Diego levou menos de um segundo para tomar a decisão.
- Pois é, acho que não é hora de economizar. Vamos tocar com o bezerro então.
- Misefê fez uma boa escolha. Vamos jogar o caminho desse sujeito para bem longe do seu.
Ele deixou o local desconfiado, não acreditava em mandinga, mas já estava sem opções e, afinal, mal não podia fazer. Passou próximas semanas na ansiedade de que algo acontecesse, chegou a cogitar fazer uma ligação para o Seu Casemiro e pedir o dinheiro de volta, mas preferiu não se indispor com um pai-de-santo. Foi quando um colega lhe abordou no cafezinho, com o maior sorriso do mundo:
- E aí, você já soube do Rubens?
O coração de Diego palpitou e foi difícil esconder a ansiedade quando ele fez a pergunta:
- Não soube. O que aconteceu? Ele foi demitido?
- Que nada, está sendo transferido. Vai ser o novo diretor da nossa filial em Nova York. Casa e despesas pela empresa, e ainda ganhando em dólar. O mais estranho foi como tudo aconteceu. Parece que ele estava concorrendo ao cargo com outros dois candidatos, mas que era o azarão. No final do processo um dos candidatos sofreu um ataque cardíaco e o outro foi descartado porque teve uma discussão sem sentido com o presidente. Que loucura né?
- Loucura...
Diego estava perplexo, sentindo um misto de alívio e indignação.
Maldito velho mandingueiro!
Realmente, com trabalho de animal de quatro patas não se brinca.
[]s
Jack DelaVega





